O "Fórum das Regiões", defende uma Região Norte coincidente com a actual região-plano (CCDR-N) e um modelo de regionalização administrativa, tal como o consagrado na Constituição da República Portuguesa.

O "Fórum das Regiões", considera a Regionalização o melhor modelo para o desenvolvimento de Portugal e para ultrapassar o crescente empobrecimento com que a Região Norte se depara.


segunda-feira, 25 de março de 2013

Ruas mudam de nome para conseguir acolhimento para crianças


Fórum das Regiões: Esta iniciativa merece o nosso apoio e admiração. Ainda há autarcas com juízo e que são verdadeiros emprendedores. Afinal sempre é possível ..."fazer bem, as coisas certas".


"Pelos Direitos da Infância", e durante dois meses, a Câmara de Esposende mudou a toponímia nas ruas em busca de abraços acolhedores, no âmbito de uma campanha da Associação Mundos de Vida.


Desde quinta-feira à tarde que são visíveis alterações nas denominações das principais artérias da cidade no âmbito da campanha, organizada pela Associação Mundos de Vida, "Procuram-se Abraços 2013".
A iniciativa decorre em dez concelhos do norte do país e tem como objetivo "promover o acolhimento familiar de crianças".

Até 14 de maio, o Largo Rodrigues Sampaio chama-se Largo dos Abraços e a Rua 1º de Dezembro tem agora o nome de Rua das Famílias de Acolhimento. Também a Praça do Município ostenta o nome de Praça Cidade Amiga da Infância.

A iniciativa conta com a parceria da Câmara de Esposende e da Comissão de Proteção de Crianças e Jovens local. "Encontrar mais famílias para acolher crianças que temporariamente não podem viver com os pais devido a dificuldades sociais graves" é o principal propósito da campanha.

Fonte: Jornal de Notícias

Contra atrasados mentais e régulos


Inconsciente, um atrasado mental pode provocar danos irreparáveis à sociedade se não se lhe resistir, primeiro, e ajudar, depois. Se o atrasado mental estiver rodeado de rapaziada servil e ainda por cima encarnar o papel dos antigos régulos, tanto pior.
No passado, a Europa viveu fases nas quais esteve entregue a atrasados mentais - como Hitler. Pagou então um elevado preço, mas foi capaz de se lhe opor, embora tarde. Sobrou dessas épocas algo de preocupante: não aprendeu a lição. E daí ao surgimento de novos loucos de rédea à solta foi uma curta distância.
Há hoje uns senhores na Europa a ensaiar uma escalada de prepotência a que urge pôr cobro. A estratégia da criação de necessidades a determinadas zonas da Europa alimenta um quero, posso e mando intolerável.
Fugindo dos referendos como o Diabo da cruz, sob a capa de uma democracia fatiada, o poder dos eurocratas é o indício de maior preocupação.
Aos múltiplos exemplos de excrescências já conhecidos, o Eurogrupo, uma espécie de messe de sargentos, teve agora mais uma decisão abjeta. Aceitou um plano de resgate para o Chipre sob uma condição: a taxação dos depósitos bancários dos cidadãos! Sim, recuaram ontem na ideia de aplicar um imposto para contas abaixo dos cem mil euros, mas o princípio geral mantém-se: o confisco das poupanças de uma vida!
Uma Europa assim, capaz de adotar todas as políticas e o seu contrário, jamais inspirará confiança nos mercados financeiros - ou, mais importante, nos seus simples cidadãos.
Meter o dinheiro debaixo do colchão e arriscar ficar sem ele por via da ladroagem comum fez parte, achava-se, de um tempo reservado aos incautos. Julgava-se ser apenas um risco terceiro-mundista ficar-se sem o dinheiro depositado numa entidade bancária mas, pelos vistos, já por cá existem os primeiros laivos de que não é bem assim...
Sabe-se, o confisco no Chipre não está, por agora, replicado em nenhum outro país. Mas para lá se caminha se, à falta de reações enérgicas, continuar uma parte dos europeus a entender não correrem o risco de ser afetados.
Entrar em pânico não é o melhor receituário - antes piora as situações.
Impõe-se, por isso, confiar na Banca - e das caixas multibanco, à hora a que se escrevem estas linhas, ainda saem notas de euro. E amanhã, também?
O governador do Banco de Portugal, pessoa acima de qualquer suspeita, garante não estar o país, nem outros da Zona Euro, em risco de copiar o Chipre. Mas ainda que assim não fosse, alguém acha que Carlos Costa faria figura de tanso, muito tanso, e anunciaria por antecedência a decisão de taxar ou cativar as contas bancárias?
Ora, ora...

Fernando Santos, no JN

O Interior é muito bonito, pá!


O presidente da Câmara de Mondim de Basto recebeu, há dias, um telefonema de um presidente de junta daquele concelho do distrito de Vila Real a pedir-lhe ajuda (isto é: dinheiro)para aumentar o cemitério da sua freguesia. Humberto Cerqueira (PS) ouviu o autarca e, finda a chamada, pensou: "Ando a vender escolas para alargar cemitérios".
Esta frase, dita num encontro promovido pelo JN com os presidentes de Câmara de Vila Real, diz mais sobre o estado em que se encontra o Interior do país do que mil estudos académicos polvilhados com belos modelos económicos e sociológicos a sustentarem previsões e a apontarem soluções. Sim, porque, como diria na mesma sessão de trabalhos o presidente da Câmara de Boticas, Fernando Campos (PSD), "de estudos estamos todos fartos. O que falta é uma estratégia".
Ora, nem de propósito, o secretário-geral do PS disse ontem coisas (isso mesmo: coisas) sobre o que deve ser feito para resgatar o Interior. António José Seguro acha que o Interior do país tem "muitas potencialidades" e que elas devem ser aproveitadas para assegurar uma "vida melhor" aos portugueses.
"É fundamental que se perceba que o interior tem futuro, tem ótimas condições, tem muitas potencialidades, tem uma qualidade de vida magnífica, tem espaço, tem rendas de casa muito mais baixas, tem mesmo muitas possibilidades que, se forem rentabilizadas e vistas como oportunidades, criam condições para que os portugueses possam ter uma vida melhor", disse o líder socialista no Sabugal, Guarda.
Numa palavra: Seguro acha o Interior do país muito bonito e vê ali uma espécie de oásis para onde corerrão portugueses aos magotes, desde logo porque as rendas são baratas e o ar muito saudável. É uma visão quase enternecedora, mas que não resiste, claro, à prova dos fatos: ou Seguro inventa milhares de postos de trabalho que fixem quem lá está e atraia quem para lá queira ir, ou, em alternativa, garante uma hortinha a cada um dos imaginários repovoadores do Interior desertificado, de modo a garantir-lhes, apenas e só, a sobrevivência.
Estes votos pios sobre as "possibilidades" e as "potencialidades" do Interior, uma e outra vez reiterados por líderes partidários quando dão um pulinho às berças, são profundamente irritantes. Só na última década, o distrito de Vila Real perdeu cerca de 50 mil habitantes. O desemprego duplicou. A perda de serviços galopou. A agricultura definhou. O envelhecimento trepou.
Os autarcas têm culpas no cartório? Têm. Mas estão muito longe de ser os principais culpados. Por uma razão: as decisões sobre o verdadeiro aproveitamento das "potencialidades" não são tomadas por eles. São tomadas longe deles. E muitas vezes contra eles. Enquanto assim for, as escolas continuarão a fechar e os cemitérios a alargar.

Paulo Ferreira, no JN

quarta-feira, 20 de março de 2013

A mãe que chora na rádio


A história que segue é tragicamente verídica: foi contada no fórum matinal da TSF, ontem dedicado ao facto de as famílias portuguesas estarem a cortar nos gastos com comida para suportar os efeitos da crise (o tema fez a manchete da edição de ontem do JN).

Contava a ouvinte que, em jeito de brincadeira e dada a crescente escassez de bens lá em casa, uma das filhas lhe dizia, à hora da refeição, qualquer coisa como: "Já sei, mãe. Hoje vamos comer sopa do que há e arroz do que há". Era a forma encontrada para brincar, logo tentar minorar, com um problema grave: a falta de comida. O acentuar da crise levou a mãe a responder-lhe: "Filha, já estivemos mais longe de comer sopa e arroz do que não há".

O choro que ia cortando as frases deste doloroso retrato fora antecedido por outro, este de um homem que explicava como os seus clientes deixaram de ter dinheiro para mudar o óleo ao carro, arriscando assim perdê-lo de vez. A seguir ouviu-se, em fundo, um galo. O animal interrompeu o desfiar de desgraças do dono, que, aproveitando o som inusitado, atirou: "Está a ouvir o galo? O que me vale é uma pequena horta e uns animais que tenho aqui atrás da casa"!

Podemos buscar muitas explicações sociológicas e outras tantas económicas e financeiras para o que nos está e irá acontecer. Mas este é, disso não tenhamos dúvidas, o retrato dos dias de muitas e muitas famílias portuguesas. Precisamente aquelas que, por falta de dinheiro, são obrigadas, entre outras coisas, a reduzir os gastos com alimentação.

Aposto que o ministro das Finanças e quejandos chamam a isto custos do ajustamento. É uma forma desavergonhada de qualificar o drama da mãe que chora quando deixa de suportar o simpático humor da filha para lhe dizer que, lá em casa, as coisas ainda vão piorar antes de melhorar.

Apetece torcer a famosa frase de Saint-Exupéry: "Aqueles que passam por nós não vão sós, não nos deixam sós. Deixam um pouco de si, levam um pouco de nós". Estes que estão a passar por nós, quando partirem, deixarão muito de si, para mal dos nossos pecados, e levarão (quase) tudo de nós.

É bem provável que o consumo privado afunde ainda mais. A taxa de inflação homóloga ontem conhecida aponta para aí: foi de 0%, quando comparados os meses de janeiro de 2012 e de 2013. Quer dizer: as empresas estão sem espaço para aumentar preços, logo reduzem os ganhos, logo tendem a ajustar, isto é, a desempregar.

O risco de deflação (queda generalizada dos preços) pode ainda estar longe, mas não é desprezível. Ele é consequência dos períodos de recessão. Foi particularmente grave na Grande Depressão que devastou os EUA: entre 1930 e 1933, os preços diminuíram 27%, os salários 40% e o desemprego disparou. Era só o que nos faltava...

Paulo Ferreira, no JN

Direito por linhas tortas


Ainda que os valores da transparência e da participação democrática estejam ausentes do conclave cardinalício e sejam estranhos, em geral, aos procedimentos internos da Igreja, pela escolha de Francisco I para a cadeira de Pedro estão os católicos de parabéns e ficou o Mundo um pouco mais esperançoso. Alguma prodigiosa "iluminação" terá conduzido os 115 cardeais até "quase o fim do Mundo", ao encontro deste engenheiro argentino de vida simples e palavra clara, filho de um emigrante que trocou a Itália de Mussolini pelos horizontes bem mais prometedores do Novo Mundo. E assim triunfou a inteligência das mudanças indispensáveis e se demonstrou uma vez mais que Deus pode escrever "direito por linhas tortas".

Já a transposição desta "prerrogativa divina" para o mundo profano se afigura, porém, incerta e problemática. Disso mesmo nos dão conta os 60 subscritores - quase todos residentes na capital e arredores - do "Manifesto pela Democratização do Regime", divulgado na passada terça-feira. Ali afirmam que a corrosão dos procedimentos e das instituições democráticas inibem a capacidade do nosso regime político produzir verdadeiras alternativas às políticas que arrastaram a governação da República até à desgraça presente e que bloqueiam quaisquer mudanças que possam perturbar as oligarquias políticas instaladas ou ameaçar a sua intolerável promiscuidade com os grandes interesses económicos e financeiros.

Num registo lúcido e cirúrgico, o "Manifesto" aponta "três passos fundamentais" para consumar a "rutura" indispensável:

- impor a realização de eleições primárias efetivamente abertas à participação de todos os simpatizantes, para a escolha dos candidatos dos partidos "a todos os cargos políticos";
- pôr termo às "listas fechadas" de candidatos cooptados pela direções partidárias, através da imposição do "voto nominal" e da extinção do monopólio partidário nas eleições legislativas;
- adotar regras para o financiamento público das campanhas eleitorais que garantam a transparência e a equidade entre todos os concorrentes.

São três passos simples, pertinentes e razoáveis que não será fácil enjeitar com pretextos expeditos. É um desafio que os partidos políticos fariam bem em assumir, admitindo que estão conscientes da gravidade das ameaças e determinados a combater a crescente erosão da confiança que os cidadãos depositam nas instituições democráticas e que, de forma veemente, têm vindo a manifestar.

O sucesso meteórico do "Movimento 5 Estrelas" nas recentes eleições italianas constitui um aviso que deve ser ponderado com a máxima seriedade. Também em Portugal, nos anos oitenta, no final do último mandato do Presidente Ramalho Eanes, um partido de inspiração presidencial - o PRD (Partido da Renovação Democrática) - aproveitou o amplo descontentamento gerado pelas medidas de austeridade impostas pelo FMI e executadas por um frágil governo de coligação entre o PS e o PSD, obtendo uma votação nas eleições legislativas de 1985 que, por pouco, quase ultrapassava a do PS.

O "Manifesto pela Democratização do Regime" assume uma clara distanciação face à demagogia populista e antipartidos que marcou a curta história do PRD e o seu desenlace infeliz. Evidentemente, não há engenharia eleitoral que garanta o acerto das políticas e a justiça da governação. A longa deriva que lançou os partidos sociais-democratas no pântano da terceira via e a sua dócil submissão aos dogmas do mercado preconizados por Margareth Thatcher, Ronald Reagan e George W. Bush, impediram, desde a era de Tony Blair, a reconstituição das fronteiras entre a esquerda e a direita, no mundo contraditório que sucedeu à implosão do império soviético. É por isso indispensável uma alternativa política substancial, aberta aos novos modos de participação política e mobilizadora de novas energias.

Pedro Bacelar Vasconcelos, no JN

Álvaro, leiloeiro de Portugal


Amigo Álvaro, uma má notícia: Vancouver não tem saudades tuas. "Álvaro who?" "Minister"? Tudo calmo no Canadá sem ti. Talvez tu tenhas saudades do Canadá. Ou talvez não - está sempre a chover, frio, e, assim como assim, umas 'férias' em Portugal vieram a calhar. Depois voltas tranquilamente para a civilização onde nenhum dos teus amigos saberá que tentaste meter um país no caixote do lixo ambiental.

Só assim se compreende que consigas ultrapassar em meia dúzia de meses as traquinices irresponsáveis dos PIN (projetos de Potencial Interesse Nacional) de Sócrates, Pinho e Basílio, que arrasavam o que fosse preciso por uma boa notícia de telejornal. O teu padrão é o mesmo: o que é necessário é "investimento". Desenvolvimento à pressa, martelado, cujas consequências nem quererás compreender. Obviamente, quando o recreio acabar, voltas às aulas de Vancouver.

Portugal ficará literalmente esventrado depois desta tua aventura de assinares uma centena de contratos de exploração mineira cuja exploração, no final, deixará crateras e contaminações nos cursos de água durante séculos. Já para não falar das poeiras que voam a quilómetros de distância e criam permanentes problemas respiratórios. Basta ir às Minas de São Domingos, no Alentejo, a São Pedro da Cova, em Gondomar, ou Nelas e Canas de Senhorim (bem perto de Viseu, tua terra natal) e ver. Crateras lunares e contaminações letais.

Percebe-se que algo de muito grave tem de estar a acontecer a um país que entrega, sem qualquer burburinho público, uma centena de novas concessões mineiras de uma só vez, faz do eucalipto a sua principal espécie e acha que vastas áreas de monocultura de olival intensivo (onde se inclui o maior do Mundo, com 12 mil hectares), numa terra tão árida como o Alentejo, é algo de sustentável. Assim, é um país sem futuro, e não por causa da dívida mas sim por perder o território.

Nesse mesmo fio de pensamento parecer-te-á normal, caro Álvaro, apoiares a exploração de gás de xisto (shale gas) no estuário do Tejo quando se sabe que é preciso dar algum tempo até que a exploração do shale não represente, por si só, a destruição da água limpa que está por baixo do solo. Há uma coisa que não te entrará na cabeça, eu sei: a água é mais importante que a energia. A energia tem alternativas. A água não.
A tua famosa frase "A Europa tem regras ambientalistas muito fundamentalistas que prejudicam a nossa indústria e prejudicam o nosso emprego" teve, aliás, uma rara resposta certa da tua colega Assunção Cristas quando lembrou no Parlamento que "não devemos ter a ambição de sermos iguais a outras geografias que, nessa matéria, estão atrás de nós". Claro, Álvaro, a Europa e o ambiente... Para quem está no Canadá a União Europeia é exatamente o quê?

E agora essa ideia da Trafaria? Um 'novo' porto (privado e estrangeiro) em Lisboa que obriga a redesenhar uma via férrea nova e também, evidentemente, desembocará na necessidade de se fazer a nova travessia sobre o Tejo. Curioso: não era o teu ministério que pretendia criar uma linha de mercadorias, urgente, para o Porto de Sines? E afinal vai-se construir um porto de águas profundas quase ao lado, ou seja, em Lisboa?... Mas isto bate certo com o ar do tempo. Também se entregou a ANA a um consórcio que acenou com dinheiro, hoje, e ficou com um monopólio que nos há de custar os olhos da cara durante décadas.

Álvaro, só um pedido mais: quando regressares a Vancouver, passa pela viaduto da zona do porto, ali mesmo, junto à baía (Waterfront) e espreita os comboios de mercadorias de centenas de metros de extensão, com dois contentores (um em cima do outro) em cada vagão. Esses comboios andam em cima de linhas onde também circulam comboios de passageiros, certo? Mas em Portugal, segundo o teu secretário de Estado dos Transportes, isso é impossível... Depois passa os olhos pelos planos do Obama de ir substituindo o transporte de avião pelos comboios mais rápidos (não precisam de ser 'ferraris'). Repararás então que ambas as coisas são possíveis, lá está, sem demagogia. Entretanto fala com os teus colegas sobre essa coisa nova, a Economia do Ambiente. E talvez, para a próxima, voltes ao Governo, mas com um pouco mais de mundo.

Daniel Deusdado, no JN

Crise não se resolve "contra o Estado social", avisa diretor da faculdade de Economia de Coimbra


Fórum das Regiões: Digam isso ao Sr. Coelho e ao Sr. Gaspar, pode ser que eles aprendam alguma coisa sobre como governar o país...


"As políticas sociais e o Estado social são condição para lançar o crescimento económico", sem o qual não será possível vencer a crise, disse o diretor da Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra, José Reis, durante um debate sobre "A segurança social pública".

Para José Reis, que participava num debate sobre "A segurança social pública - Defesa do Estado social e a sua sustentabilidade futura", promovido pela FEBASE (Federação Nacional do Setor Financeiro), "as políticas sociais e o Estado social são condição para lançar o crescimento económico", sem o qual não será possível vencer a crise. É necessário "exatamente o contrário daquilo que tem vindo a ser feito, até agora" em Portugal, sustentou o economista, considerando que "é preciso mais Estado e investimento público, sobretudo no domínio das políticas sociais". 

A segurança social é "crucial para que vivamos com um mínimo de dignidade", mas também para "relançar" a economia, como, de resto, está a fazer, por exemplo, o Japão, país que tem ultrapassado "crises complicadíssimas" porque possui "a agilidade institucional" e "a capacidade de ação" que a "decrépita Europa não tem". 

Portugal precisa de "um imediato ajustamento salarial, não apenas do ponto de vista social e da dignidade do trabalho", mas também para relançar a economia, sublinhou o diretor da Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra (FEUC). O antigo secretário de Estado da Segurança Social e deputado do PS Pedro Marques, outros dos participantes no debate, defendeu que "Portugal tem um dos sistemas [de segurança social] mais sustentáveis", como reconhecem a Comissão Europeia, a OCDE e "até a agência de rating Fitch". A segurança social portuguesa "tem uma boa reserva (cerca de dez mil milhões de euros)", que lhe permite "aguentar nesta fase", mas o país "tem de voltar ao crescimento económico", para poder assegurar a sustentabilidade da segurança social, advertiu Pedro Marques, salientando que "sem crescimento económico não há nenhuma política pública que resista". 

O Estado social "é o modo de defesa do próprio capitalismo" e "é perigoso este afrontamento ao Estado social", afirmou o presidente do Instituto Superior de Contabilidade e Administração de Coimbra (ISCAC), Manuel Castelo Branco, que também participou no encontro. Assumindo-se como um "democrata-cristão" e politicamente de "direita", Manuel Castelo Branco, afirmou-se "confortável a defender o Estado social", lamentando que "a direita tenha esquecido a filiação do Estado social"."Só é legítimo ao Estado cobrar impostos, se essa cobrança se destinar ao Estado social", disse Manuel Castelo Branco, considerando que a "carga fiscal" em Portugal "exige um Estado social a sério e não para pagar juros usurários a credores". 

Os impostos "sempre foram a alavanca das revoluções democráticas e pode ser que o FMI [Fundo Monetário Internacional] e o nosso Governo estejam a brincar com o fogo", advertiu o presidente do ISCAC. O debate de terça-feira, em Coimbra, foi no primeiro de um ciclo de conferências sobre a segurança social que a FEBASE está a promover, naquela cidade, no Porto e em Lisboa. A FEBASE reúne os sindicatos dos bancários do Norte, do Centro e do Sul e Ilhas e os sindicatos dos Profissionais de Seguros de Portugal e dos Trabalhadores da Actividade Seguradora, todos filiados na UGT.

Fonte: Jornal de Notícias

terça-feira, 12 de março de 2013

Caso BPN, medricas e bardamerdas


Novembro e dezembro de 2008 foram meses marcados pela detenção de dois vigaristas a grande escala. Nos Estados Unidos da América, Bernard Madoff fez tremer Wall Street e o FBI deitou-lhe a mão após provocar um rombo da ordem dos 65 mil milhões de euros usando um esquema de pirâmide em fundos de investimento, alimentado por uma série de gente gananciosa.

Em Portugal, sob suspeita de burla, fraude fiscal e branqueamento de capitais, Oliveira e Costa, até então todo-poderoso presidente do Conselho de Administração do Banco Português de Negócios (BPN), foi também detido.

As coincidências terminam aqui.

Quatro anos e poucos meses depois, roçará o ridículo a tentativa de comparar consequências para os autores das falcatruas.

O sistema de justiça americano foi célere e cortou rente quaisquer hipóteses de malabarismos a Bernard Madoff. Em junho de 2009, isto é, sete meses após ter ido parar com os ossos a um estabelecimento prisional, foi condenado a 150 anos de prisão! E atrás das grades está.

Em contraponto, o que aconteceu a Oliveira e Costa - e já agora a uma série de gente que sob a sua cobertura também encheu os bolsos?

É imprevisível uma sentença para a ruína provocada no BPN e de cujos prejuízos o povo português paga uma fatura elevada pela via da nacionalização - já vai em quatro mil milhões de euros e, upa!, upa!, pode subir até aos sete mil milhões.

A boçalidade de Oliveira e Costa, patente num mastigar de boca aberta e sorriso cínico numa comissão parlamentar, está longe de ter um final. O julgamento tem centenas de testemunhas, arrastar-se-á por tempo indeterminado nos tribunais, e os acólitos de uma vigarice inqualificável vão, também eles, sendo acusados num sistema de conta-gotas. Uma vergonha! Um país incapaz de ter um sistema de justiça no qual os prevaricadores não sejam punidos em tempo razoável é, em certa medida, um sítio pouco recomendável.

O caso BPN - como outros de escala igualmente não negligenciável - legitima todas as suspeitas dos portugueses sobre a existência de um esquema no qual os vigaristas mais poderosos se safam das malhas da lei, em contraponto aos pobres e remediados.

Madoff já está a pagar pelos crimes cometidos. Oliveira e Costa continua à solta - ele e o bando que o rodeou e dele se alimentou, obtendo igualmente benesses ilícitas.

Um país assim, insiste-se, não augura nada de bom. É um país entregue em muitos setores a corporações nas quais os competentes existem, mas são uma minoria; pior, são constituídas por demasiados medricas e bardamerdas.


Fernando Santos, no JN

Sondagem mostra um Governo de costas voltadas para o povo


Fórum das Regiões: Há muito que o "mundo" político está à parte do "mundo" real dos cidadãos. Veja-se que, quase ao mesmo tempo que o Presidente da República alertava para o que significavam as ditas manifestações, o primeiro ministro dizia que não governava ao sabor delas. Julgo que este, só não disse afinal de contas o quê que "estava a governar"!

O Governo vai cortar no Estado Social, quando deveria fazê-lo nas Parcerias Público Privadas e nos juros da dívida. Uma sondagem para o JN revela um divórcio claro entre a austeridade com que o Governo ameaça e os cortes que os portugueses defendem.


As manifestações de sábado passado deram um sinal claro de falta de sintonia entre quem governa e quem é governado. Mas outra prova desse divórcio são os dados recolhidos por uma sondagem da Universidade Católica para o JN.

Perante o anúncio de cortes de quatro mil milhões de euros nos gastos anuais do Estado, os portugueses têm respostas diferentes, quando confrontados com as áreas onde acreditam que o Governo vai cortar e as áreas onde acham que deveria cortar.

Saúde (61%), Educação (54%) e Segurança Social (52%) serão os serviços mais afetados, apontam. Sendo que a energia do Governo deveria estar a ser direcionada para obter poupança nas Parcerias Público Privadas (57%) e nos juros da dívida (36%).

Como explica a analista Cristina Azevedo, os portugueses já perceberam que os interesses dos parceiros privados nas PPP e os interesses da Troika serão "ferozmente defendidos" (ver opinião).

O único ponto de contacto entre os portugueses e o Governo está nos cortes na área da Defesa: 33% defende que se façam, 34% pensa que se fará. Um dado confirmado quando se faz uma pergunta mais concreta sobre o número de militares no ativo: 43% dos portugueses defende uma diminuição, contra 49% que quer a sua manutenção ou até o seu aumento.


Fonte: Jornal de Notícias

O Rio é fino como um alho


Ó! meu Porto onde a eterna mocidade diz à gente o que é ser nobre e leal, teu pendão leva o escudo da cidade que na História deu o nome a Portugal... Confesso que sinto um arrepio na espinha quando, a sublinhar a entrada em campo da nossa equipa, a instalação sonora passa o hino do F.C. Porto, cantado pela voz límpida de Maria Amélia Canossa e tocado pela London Philharmonic Orchestra.

Não é muito racional, mas penso que todos - portistas ou salgueiristas, benfiquistas ou sportinguistas - sabemos que o futebol não é o território da razão, mas da emoção e da paixão.

Maria Amélia Canossa faz parte de um geração de cançonetistas, como Tony de Matos e Simone de Oliveira, que marcaram o panorama musical do Portugal dos anos 60. Quando recordo Tony de Matos, vêm-me à memória "Só nós dois" (...é que sabemos quando nos damos bem). Falam-me de Simone de Oliveira e desato logo a trautear "Desfolhada" (eira de milho, luar de agosto, quem faz um filho, fá-lo por gosto) com a minha voz desafinada.

O hino do Porto é a minha reação pavloviana ao nome da Maria Amélia Canossa, que Rui Rio planeia distinguir quando no 25 de abril distribuir pela última vez as medalhas da cidade.

Uma escolha algo estranha por vir de um político que a primeira coisa que fez após ser eleito presidente da Câmara foi levar à cena um western de 4.ª categoria, com o Porto a fazer de cidade selvagem do Faroeste, reservando para ele o papel do xerife que enfrenta um bando de malfeitores, onde se conluiava perigosos agentes culturais, empreiteiros e o F.C. Porto.

O Rui é fino como um alho. Esta estratégia resultou em plano para um político como ele, para quem o Porto não era o ponto de chegada, mas o trampolim para altos voos em Lisboa. Ao declarar guerra a Pinto da Costa conquistou a simpatia dos alegados seis milhões de antiportistas.

Durante uma dúzia de anos, Rio cometeu a proeza de ser o único autarca da Europa a recusar a varanda dos Paços do Concelho ao clube que leva mais alto o nome da cidade - os campeões europeus de 2004, vencedores da Taça UEFA de 2003 e da Liga Europa de 2011, e campeões nacionais em 2003, 2004, 2006, 2007, 2008, 2009, 2011 e 2012.

No ano passado, Rui surpreendeu ao dar a medalha de mérito municipal, grau cobre, ao Manuel do Laço, sócio símbolo do seu Boavista. Este ano vai dar a medalha de mérito municipal, grau prata, à cantora do hino do Porto. Tem lógica, apesar de ter pena que ele se tenha esquecido do Lourenço trompetista.

Já agora, que estamos a falar de distinções, desconfio que o próximo presidente da (e não de? ) Câmara vai entregar ao F.C. Porto as chaves da cidade, depositando-as nas mãos do seu líder histórico, Pinto da Costa. Pois, como canta Maria Amélia Canossa, "quando alguém se atrever a sufocar o grito audaz da tua ardente voz, ó! Porto então verás vibrar a multidão, num grito só de todos nós".

Jorge Fiel, no JN