O "Fórum das Regiões", defende uma Região Norte coincidente com a actual região-plano (CCDR-N) e um modelo de regionalização administrativa, tal como o consagrado na Constituição da República Portuguesa.

O "Fórum das Regiões", considera a Regionalização o melhor modelo para o desenvolvimento de Portugal e para ultrapassar o crescente empobrecimento com que a Região Norte se depara.


sexta-feira, 26 de abril de 2013

Caixa não dá uma para a caixa


Sinto estar à beira de uma mudança histórica na minha vida. Até agora tenho sido um acumulador de todo o tipo de tralha, de livros a discos, passando por artesanato (a última aquisição foi um enorme cabeçudo, comprado em Viana), revistas ou recordações de viagens tão diversas e inúteis como passes de transportes públicos, cinzeiros (não fumo) ou menus de restaurantes.

Também tenho o armário da roupa a abarrotar, ao ponto de estar convencido de que até morrer não preciso de comprar mais vestuário. Mas, por favor, não fiquem a pensar que esta abundância excessiva foi atingida pela via aquisitiva. Não, ela deve-se exclusivamente ao facto de estar sempre a herdar de dois bons amigos, que se mantêm acima de mim no processo da engorda, casacos, camisolas e calças em excelente estado e de marcas reputadas.

Mas sinto que estou num momento de viragem, prestes a tornar--me num militante do minimalismo, uma nova tendência baseada no destralhar, ou seja, em vermo--nos livres - dando, emprestando ou vendendo - de todas as coisas que temos em casa e só servem para nos arreliar, ocupam espaço, consomem tempo e dinheiro.

Como acho que o que é bom para mim também é bom para a comunidade, entendi por bem abusar deste cantinho que o nosso JN generosamente me proporciona para sugerir a Passos Coelho que aproveite esta crise aberta pelo Tribunal Constitucional para aderir ao minimalismo e começar pela Caixa Geral de Depósitos um processo profundo e irreversível de destralhar o Estado português.

Se pensarmos bem, a Caixa só nos dá chatices e é um péssimo negócio mantê-la. Não dá dividendos e os prejuízos recorde (na ordem dos 400 milhões/ano) que acumula obrigam-nos a estar sempre a meter lá dinheiro, em sucessivos aumentos de capital - o último foi de 750 milhões de euros e piorou as contas do défice.

Além de perder dinheiro, a Caixa é desobediente e malcomportada. Este janeiro, repetiu a gracinha de 2012, recusando-se a aplicar os cortes nos salários dos trabalhadores das empresas públicas previstos no Orçamento. E desafiou o Banco de Portugal ao teimar em manter as comissões indevidas nos cartões de débito, mesmo depois de todos os bancos privados terem acatado a sua proibição.

Com 1,2 mil milhões de euros de imparidades apuradas, a Caixa é líder no campeonato deste elegante sinónimo financeiro para buracos, devido à atividade de financiadora de capitalistas sem capital derivada da sua função de braço armado da fação política no Poder.

Apesar de ter uma equipa de 11 gestores, em que cada um ganha em média mais de um milhão de euros/ano, a Caixa ainda não conseguiu cumprir a recomendação da troika de despachar a sua posição maioritária no mercado de seguros. Ou seja, não dão uma para a caixa.

A melhor prova de que a Caixa não serve para nada é o facto de toda a gente falar na necessidade de um Banco de Fomento para fazer chegar crédito à economia real - ou seja, para desempenhar a função que o banco público devia cumprir - e não cumpre. Por isso, o melhor que há a fazer é destralhar, vendendo a Caixa e aproveitando o encaixe para reduzir a dívida pública.

Jorge Fiel, no JN

quarta-feira, 17 de abril de 2013

Remodelar sem mudar


Vivem-se semanas de alta intensidade. Depois de uma moção de censura, da demissão de Relvas e da decisão do TC, a tempestade continuou com um polémico despacho de Gaspar, as negociações de Dublin e, por fim, a mini-remodelação do Governo. É justamente sobre esta última que me debruço hoje, pela irónica razão de que nada vai mudar.
Na remodelação agora operada pelo PM foi contemplada uma substituição. Miguel Relvas por Marques Guedes é uma troca de baixo risco, conservadora e compreensível, que apenas peca por tardia. Nada a dizer.
Mas houve uma novidade maior. Para os que esperavam o reconhecimento do óbvio, os megaministérios da Economia e Emprego e da Agricultura, Mar, Ambiente e Ordenamento do Território não foram divididos, o que significa que continuarão inoperantes. A surpresa foi um novo ministro, designado adjunto e do Desenvolvimento Regional, que tutelará a comunicação social, os fundos comunitários e as autarquias locais. É aqui que surgem as minhas mais profundas dúvidas.
Numa primeira leitura, a ideia de um ministro dedicado ao desenvolvimento regional é em si positiva e traz alguma esperança. Contudo, este movimento de Passos Coelho tem uma envolvente plena de indícios suspeitos.
O primeiro indício é a disputa que vinha sendo travada pelo controlo dos fundos comunitários. O ministro da Economia, politicamente fraco e desconhecedor dos meandros da governação, nunca foi capaz de se impor. Perdeu primeiro para o ex--secretário de Estado Almeida Henriques. Com a saída deste do Governo e a opção de Passos Coelho de não o substituir, fui daqueles que de imediato denunciaram a retirada dos fundos comunitários da Economia para as Finanças.
O segundo indício é o perfil escolhido para o novo cargo. Miguel Poiares Maduro está fora da realidade portuguesa pelo menos desde 2003, com passagens pelo Tribunal de Justiça da União Europeia e pelo Instituto Europeu Universitário de Florença. Tem um currículo brilhante como jurista e professor. Mas não tem absolutamente nada a ver com o desenvolvimento regional. A atribuição de fundos comunitários a Portugal tem o objetivo explícito e inequívoco de promover a coesão, contribuindo para um processo de convergência das regiões mais pobres do país com a média europeia. Tutelar o desenvolvimento regional não é gerir a folha da alocação de fundos. É desenvolver estratégias, desenhar programas e fazer opções em domínios como as infraestruturas de apoio à economia e à sociedade, a eficiência coletiva, a redução dos custos de contexto, etc. E, para isso, exige-se o conhecimento aprofundado do território, dos seus agentes e dinâmicas.
Um terceiro e demolidor indício é o desprezo a que o desenvolvimento regional foi votado por este Governo. Da esquerda à direita, das elites às bases, das empresas aos trabalhadores, da academia à Comunicação Social, existe um vasto consenso na ideia de que este é o mais centralista de todos os governos do pós-74. Como se explica que uma região da dimensão e importância do Norte, com uma poderosíssima força exportadora e, contudo, plena de problemas ao ponto de ser a mais pobre de Portugal, tenha esperado meses em 2012 pela nomeação do presidente da CCDRN e esteja atualmente com esse cargo vago, sem qualquer pressa ou interesse do Governo de o ocupar? Para os mais desatentos, a letra D na sigla CCDRN significa, imagine-se, Desenvolvimento. Ou seja, o caminho para o desenvolvimento regional em Portugal traça-se pela nomeação de um ministro em Lisboa, podendo a região esperar. Inexplicável.
Esta combinação de indícios reforça o meu ceticismo e leva-me a crer que, na verdade, nada mudará. Dito de outro modo, a trajetória ensaiada de deslocar o centro de gravidade da decisão sobre os fundos comunitários da Economia para as Finanças e das Regiões para a Capital continuará a fazer o seu caminho, tal como planeado. O novo ministério, bem perto do PM e das Finanças, é apenas mais uma peça de uma estratégia há muito tecida, tributária de um desígnio ideológico a que nenhuma inoportuna estatística das assimetrias regionais poderá fazer frente.

José Mendes, no JN

Gestores da dívida pública ganham mais que Passos Coelho


Forum das Regiões: Ora aí está a austeridade que Passos Coelho preconiza, uns morrem à fome, outros, os ditos especialistas, auferem ordenados chorudos. Uma vergonha, para este governo e para este partido...

O Governo autorizou, esta quarta-feira, salários mensais até 10 mil euros para o presidente da Agência de Gestão da Tesouraria e do Crédito Público, João Moreira Rato, e até oito mil euros para os dois vogais. Salários que são quase o dobro do que aufere o primeiro-ministro, Pedro Passos Coelho.

O primeiro-ministro tem um salário de 4892 euros, metade do que vai receber o presidente da Agência de Gestão da Tesouraria e do Crédito Público, João Moreira Rato, autorizado pelo Tesouro a receber uma remuneração mensal de até 10 mil euros.
Os vogais da IGCP também terão um rendimento que supera o do primeiro-ministro e o de Cavaco Silva (6523 euros), ao serem autorizados a receber salários de 7 a oito mil euros por mês.
A autorização foi assinada há uma semana pela secretária de Estado do Tesouro, Maria Luís de Albuquerque, e foi publicada em Diário da República com efeitos retroativos a 2 de setembro do ano passado.
"É autorizada a opção pelo valor correspondente à remuneração média dos últimos três anos", lê-se no despacho publicado, que atribui à vogal Cristina Casalinho uma remuneração mensal de 6998,45 euros e ao vogal António Pontes Correia 7960,49 euros.
Num outro despacho também publicado esta quarta-feira, o Governo define que as remunerações dos membros do conselho de administração do IGCP "correspondem às remunerações definidas para os conselhos de administração das empresas classificadas no Grupo A", que empregam mais que 1500 trabalhadores e um volume de negócios superior a 100 milhões de euros.
Neste diploma, o Governo justifica a autorização dada ao IGCP com a "especial complexidade técnica, exigência e responsabilidade" exigíveis ao conselho diretivo desta Agência e lembra que desde que foi criado, em 1996, estes titulares "tiveram remunerações e regalias equivalente às mais elevadas legalmente admitidas para os membros dos conselhos de administração das empresas públicas".
Em agosto do ano passado o IGCP foi transformado em empresa pública, sob a forma de entidade pública empresarial.

Fonte: Jornal de Notícias

Juros mais baixos resultam do BCE e não da austeridade, diz Paul Krugman


Fórum das Regiões: Será que o Homem, que até já foi Nobel da Economia é "burro", ou burros são o Coelho e o Gaspar?

O economista e prémio Nobel Paul Krugman atribui a descida dos juros da dívida portuguesa à intervenção do Banco Central Europeu e não ao sucesso da política de austeridade em curso no país.

"Esta descida dos juros não tem nada a ver com a austeridade", sustenta Paul Krugman no seu blogue no "New York Times", atribuindo-a, antes, à intervenção do Banco Central Europeu (BCE) na compra de dívida soberana dos países em dificuldades, nomeadamente Portugal.
Neste contexto, o economista critica a Comissão Europeia - que, na segunda-feira, elogiou a determinação do Governo português em prosseguir a política de austeridade apesar do chumbo do Tribunal de Constitucional a algumas das medidas impostas - quando esta reclama para si e para a sua política os créditos desta descida dos juros das dívidas soberanas e alega que um abrandamento da austeridade levará a nova escalada.
Para Paul Krugman, esta posição da Comissão resulta do facto de a descida dos juros da dívida ser "o único resultado positivo que tem para apresentar após três anos de austeridade".
Segundo sustenta o prémio Nobel da Economia, o "risco moral" inicialmente apontado pelos defensores da austeridade relativamente à intervenção do BCE na compra de dívida soberana - por considerarem que esta "ajuda" poderia levar os países em dificuldades a "relaxarem no aperto do cinto" - acabou por se concretizar, mas relativamente aos próprios apoiantes da austeridade.
"Realmente a intervenção do BCE 'ajudou' algumas pessoas, levando-as a prosseguir as suas más políticas. Mas essas pessoas não são os governos endividados, são os próprios membros da troika (Fundo Monetário Internacional, Comissão Europeia e BCE), que usam o argumento da descida dos juros da dívida para alegarem que a austeridade está a resultar", afirma Krugman.
No domingo, também no seu blogue no "New York Times", Paul Krugman, que tem repetidamente criticado a estratégia europeia de resposta à crise na zona euro, instou os portugueses a "dizer não" a novas medidas de austeridade.

Fonte: Jornal de Notícias

Traz os Montes/PS-CDU-Bloco


1.Consultas de médico e dentista, roupa, alimentos e orientações nutricionais para famílias carenciadas em troca das boas notas de alunos. Está a acontecer em Trás-os-Montes por força de uma iniciativa que não dependeu do Estado mas sim do apoio generoso das empresas locais e da iniciativa fundadora do padre Amadeu Castro. Esta aventura social batizada de "Bagos d'Ouro" foi trazida na segunda-feira por este jornal.
A "Bagos d'Ouro" apoia 76 famílias e apoiará muitas mais no futuro porque as histórias felizes tendem a atrair mais gente, sobretudo quando elas puxam pelo mérito. Tem, no entanto, uma face crua da nossa realidade: aos 9 ou 10 anos estes pequenos alunos já sentem o peso da responsabilidade - melhor vida para a família depende dos resultados escolares. E a verdade é que crianças com esta responsabilidade em cima dos ombros, tão cedo, perdem uma boa parte da inocência e felicidade em função de uma 'obrigação': estudar muito. E o que é "estudar muito" ou ter "boas notas" aos 9 anos? É uma forma de combater a pobreza e as dificuldades de um ambiente familiar deprimido. Aprender cedo o preço do mundo é a dupla face do "Bagos d'Ouro". Mas a vida é assim: não se pode ajudar todos. E há que lutar desde o berço. Além disso, quando um destes miúdos falha, há alguém do Bagos para ajudar.
Mais Bagos, mesmo que não sejam de ouro, precisam-se.
2. Alguém prometeu a Trás-os-Montes a finalização do túnel do Marão - mais uma promessa (em ano eleitoral)? É verdade, é apenas uma estrada, mas pode ser quase tudo. Bastará recordarmo-nos do que era o Alentejo antes e depois da autoestrada (A6) para se perceber da importância da transferência de riqueza que acontece em localidades que passam a ter bons acessos. E Trás-os-Montes é o Alentejo do Norte e registará um enorme crescimento da riqueza porque tem natureza ainda bem conservada, um grande potencial agrícola e gente boa com capacidade de resiliência testada desde há séculos.
Há um ponto essencial para o seu futuro: a natureza é o principal trunfo daquelas terras. E é exatamente por isso que ficarão na história os crimes perpetrados pelos atuais autarcas transmontanos quando venderam por 30 moedas o rio Sabor e o Tua para duas mastodônticas e evitáveis barragens da EDP. Os dois colossais muros de betão cravados na paisagem, por mais que sejam de Souto de Moura (no Tua) ou sem assinatura (no Sabor) são um monumento à curta visão de homens que ignoram o turismo e a natureza selvagem como o principal factor de diferenciação da região. Não há turismo sem comboio, natureza intensa, paisagem e memória. Ninguém vem de avião para tomar banho em barragens... Veja-se o Alqueva e a cada vez mais degradada qualidade da água ou de como, afinal, os projetos de turismo de milhões e milhões vão arrancar... arrancar... e afinal, nada.
Ainda estão a tempo de parar o Tua, apesar da maldição que já caiu sobre o Sabor. Para isso era preciso haver senso. E vergonha.
3. Na moção de censura de ontem, no Parlamento, ficou claro uma coisa: a Esquerda parece preparada para se unir. Ou é tudo a fingir? Depois do dia de ontem o PS, CDU e Bloco têm a obrigação moral de se entenderem e apresentarem-se ao presidente da República dizendo que são uma alternativa ao Governo - e exigirem eleições. Tudo o resto é retórica. Na sequência disso, o presidente da República tem a obrigação de convidar o primeiro-ministro a sair e convocar eleições, ou evitá-las gerando dentro do PSD um processo de mutação genético. Há um PSD com ideias que vai de Cadilhe a Pacheco Pereira ou a Rangel que podem evitar o caos. E coragem?
4. A queda deste Governo não decorre do que se passa no Parlamento, mas fora dele. Como ontem este jornal noticiava, o ministro das Finanças fez as contas para 2013 pressupondo um crescimento do PIB de 400 milhões de euros. Como é óbvio (e já o era há seis meses) o PIB vai cair - mil milhões é o que se estima para já. Quem o diz é a parlamentar Unidade Técnica de Apoio Orçamental.
Perante os exemplos diários, claros, como este, não dá para continuar a acreditar nos pesadelos cor-de-rosa anunciados regularmente por Gaspar. São sempre piores do que ele diz.

Daniel Deusdado, no JN

Os perigos das autárquicas


A eleição autárquica que aí vem não é igual às anteriores: o jogo será realizado em condições muito específicas, bem capazes de alterarem resultados que, à partida, estariam decididos mesmo antes de a contenda começar. Basta olhar para os sinais que todos os dias chegam do inquieto povo.
Sendo verdade que ao mínimo sinal de crise e dificuldade há quem clame por um Salazar que ponha "isto" na ordem, não é menos certo que cresce todos os dias o número dos que, na mesma linha de pensamento, desejam um governo de não políticos, ou mesmo um governo que escorrace os políticos. A tendência é para o fenómeno crescer, na exata medida em que há uma correlação evidente entre a dimensão da crise e a dimensão destes (perigosos) fenómenos.
O que tem isto a ver com as eleições autárquicas? A consequência disto é o voto de protesto, justamente contra a política, os políticos que estão e os que estão para chegar. Nas freguesias urbanas das pequenas, médias e, sobretudo, grandes cidades ele far-se-á sentir com especial vigor, prejudicando mais os candidatos mais próximos de quem manda: a coligação PSD/PP.
Há mais duas consequências indesejáveis, mas expectáveis, que os tempos de crise aguda provocarão nas autárquicas.
Primeira: muito provavelmente, a abstenção elevar-se-á para níveis que ajudam ao raciocínio dos que desejam o regresso de um Salazar.
Segunda: estas eleições tenderão a agudizar a divisão entre autarcas que teriam tudo a ganhar se conseguissem lutar democraticamente pelo posto que desejam, mas mantendo-se unidos nas questões que são estruturais para os seus concelhos, para os seus distritos e para as suas regiões. E a agudizar porquê? Justamente porque o caráter excecional deste ato eleitoral conduzirá ao extremar de posições. Ora, posições extremadas são o oposto de soluções consensualizadas.
Sucede que nunca como agora os autarcas precisaram - e precisarão - de estar tão unidos. A política de confronto desenhada nos gabinetes de Miguel Relvas e de Vítor Gaspar, num certo conluio com o gabinete de Assunção Cristas, aconselham o estudo dos dossiês e a preparação de respostas firmes.
No Alto Minho já se percebeu o alcance da coisa: à trapalhada da junção de freguesias feita a regra e esquadro junta-se o esvaziamento político das comunidades intermunicipais e a tentativa de gestão centralizada de fundos comunitários, apenas para citar três exemplos do que está em causa.
Hão de dizer-nos que a discussão destes e doutros temas acontece num ano de eleições porque calhou. Acreditará quem quiser. Na política não costuma haver coincidências assim tão certeiras. E lá diz o provérbio: quem parte e reparte e não fica com a melhor parte, ou é burro ou não tem arte. Ora, quem está, neste caso, a repartir é o Governo. Um perigo, um perigo...

Paulo Ferreira, no JN

quarta-feira, 10 de abril de 2013

Ups, mais uma catanada!


A estratégia de desenvolvimento regional levou ontem (mais) uma valente catanada. A saída de Almeida Henriques, secretário de Estado que tutelava o setor, é uma péssima notícia. Os empresários, os autarcas e as instituições ligadas ao desenvolvimento regional tinham nele um interlocutor à altura. Quando ele sair, deixarão, simplesmente, de ter interlocutor.
A dimensão da tragédia mede-se pela seguinte circunstância: Passos Coelho não vai substituir Almeida Henriques, fazendo passar os decisivos dossiês que tinha em mãos ou para o portentoso ministro da Economia, ou para outros secretários de Estado. É toda uma estratégia: a estratégia da diluição do desenvolvimento regional.
Em abono da verdade, é preciso dizer que se trata de uma estratégia louca, populista mas coerente com o pensamento dos "chefes". Quem, como Passos Coelho e Miguel Relvas, tira o tapete às comissões de coordenação e desenvolvimento regional; quem, como Passos e Relvas, deslegitima politicamente as comunidades intermunicipais e permite mesmo que elas se partam em vez de se unir (caso da CIM do Alto Trás-os-Montes); quem, como Passos e Relvas, lidera um Governo crescentemente autista e hipercentralista, não pode, de fato, dar grande importância a essa coisa chamada desenvolvimento regional.
De modo que distribuir por personalidades"várias dossiês com a importância dos programas operacionais, dos fundos comunitários, do apoio às empresas, da defesa dos consumidores, da ligação ao território é, como está bom de ver, a melhor forma de não responsabilizar ninguém pela ausência de uma estratégia de desenvolvimento regional com cabeça, tronco e membros. O país precisa dela como de pão para a boca, mas isso, nas ocupadas cabeças de Passos e Relvas, é apenas um pormenor. Quando se aperceberem do erro, a catanada estará dada.
Acresce que não há estratégia sem dinheiro. Ora, Almeida Henriques foi o governante que, muitas vezes em surdina e outras tantas colocando os recados nos sítios certos, mais se bateu contra a centralização dos fundos comunitários no Ministério das Finanças, batalha que não está ainda ganha: Vítor Gaspar adoraria transformar o QREN - de forma encapotada, claro - num instrumento de política orçamental...
E tudo isto porquê? Por uma prosaica razão. Almeida Henriques será candidato à Câmara de Viseu porque o PSD corre o risco de perder uma das suas mais emblemáticas autarquias, o centro do "cavaquistão". O atual presidente, Fernando Ruas, baralhou de tal forma a sua sucessão que acabou por esfrangalhar o partido. Agora terá de engolir dois sapos: Almeida Henriques, que ele nunca desejou, e a falta de um secretário de Estado que defenda o desenvolvimento regional. Ruas, que é presidente da Associação Nacional de Municípios, ajudou à catanada. Não é coisa que fique bem no seu recheado currículo.

Paulo Ferreira, no JN

Reviravolta


Portugueses estão reféns de governo incompetente e não depositam qualquer esperança na oposição

A governação de Passos Coelho falhou em toda a linha. Este já só se aguenta no poder porque não há à vista qualquer alternativa credível.
A equipa de Coelho, Portas e Gaspar, não só não conseguiu tirar o país do beco para onde Sócrates nos tinha atirado, como ainda piorou a situação. As finanças públicas estão num caos. Há milhares de empresas a fechar, o desemprego é galopante. Os mais pobres passam fome, a classe média extingue-se. A coligação PSD-CDS não reduziu a despesa com as estruturas inúteis do estado. Não se baixaram sequer as rendas das parcerias, como preconizava o memorando com a troika.
Caminhamos para o abismo e o maior drama é que nem sequer há alternativa eleitoral. O PS é inconsistente. Seguro é feito da mesma massa de Passos e Relvas. Vindo das juventudes partidárias, não tem mundividência nem currículo. Não se lhe conhece uma ideia. Apenas se sabe que domina bem o aparelho socialista. Seguro é, afinal, um clone de Passos.
Restaria, como opção, a hipótese de um governo de iniciativa presidencial, apadrinhado por Cavaco Silva. Mas quais seriam as políticas desse seu executivo? Provavelmente, apenas fazer chegar à governação a ala cavaquista do PSD, constituída por gente habituada a bons empregos do estado, negócios fáceis e privilégios; e que está ávida de poder.
E quem seria o preferido de Cavaco para primeiro-ministro? Talvez Rui Rio ou Guilherme de Oliveira Martins. Mas das escolhas de Cavaco há que temer. Recorde-se que foi o atual presidente que, enquanto líder do PSD, nomeou para secretário-geral Dias Loureiro, um dos principais responsáveis pela maior burla financeira do regime, o BPN. Como primeiro-ministro, designou como líder parlamentar um atual presidiário, Duarte Lima. E já recentemente, para liderar o grupo de sua iniciativa "EPIS - empresários pela inclusão social", escolheu João Rendeiro, o responsável pela fraude do BPP. Não se pode pois confiar em quem erra tão clamorosamente em nomeações de tamanha importância.
Os portugueses estão em fim de linha, reféns de um governo incompetente, e não depositam qualquer esperança na oposição. Sabem que o Presidente é desastrado. Só com novos protagonistas poderemos sair deste atoleiro. O regime precisa de uma reviravolta.

Paulo Morais, Professor Universitário, no CM

Passos é um zero à esquerda


Sou um feroz adepto da reciprocidade. Trato por tu quem me trata por tu. Esforço-me por tratar bem quem é simpático comigo. E que se desengane quem me trata mal, pois se espera que eu retribua maus-tratos com delicadeza o melhor que tem a fazer é esperar sentado, para não ganhar varizes. Não sou daqueles que oferece a outra face. Não consigo respeitar quem não se sabe dar ao respeito.
Vem isto a propósito de já se ter tornado claro para quase toda a gente - com a exceção das avestruzes que vivem com a cabeça enterrada nas areias de Lisboa - que o rio Minho deixou de ser uma cicatriz e reassumiu o papel de dobradiça que une o Norte e a Galiza.
É aos turistas galegos (e à Ryanair) que o aeroporto Sá Carneiro deve os seus seis milhões de passageiros/ano, um movimento 33% superior ao do conjunto dos aeroportos de Vigo, Corunha e Santiago.
A proximidade da Citroën de Vigo (a segunda maior fábrica do grupo PSA) ajuda a explicar por que é que os parques industriais de Cerveira e Arcos de Valdevez estão cheios de fábricas de componentes para a indústria automóvel.
A vizinhança da Zara (a maior cadeia mundial de pronto-a-vestir) ajuda a perceber a sobrevivência da fileira têxtil, que já tinha recebido a extrema-unção dado pelos panditas de Lisboa, monoteístas que elegeram os serviços como o seu Deus.
Ignorante das potencialidades da euro-região no atenuar do abismo de riqueza entre as duas margens do Minho (do outro lado , o rendimento per capita é 93% da média comunitária, deste lado é 62%), Lisboa torpedeia este esforço.
Para além de semear portagens na A28, com um sistema de pagamento absurdo, quis fechar a ligação ferroviária Porto-Vigo, alegando que ela não tinha passageiros suficientes. O mesmo argumento seria válido para as linhas de Sintra e de Cascais, se a CP diminuísse drasticamente a frequência dos comboios, pusesse ao serviço composições que foram novas no período entre as duas guerras e o primeiro comboio chegasse a Lisboa às 9.05!
Pressionado pelos galegos e o Eixo Atlântico, Passos Coelho recuou e anunciou obras de eletrificação e sinalização que permitiriam que os 75 km da ligação ferroviária entre o Porto e Viana demorassem apenas 50 minutos (em vez das atuais duas horas), e que a duração da viagem para Vigo diminuísse de três horas para 1,50 horas.
A promessa de Passos de inscrever no QREN uma verba de 50 milhões de euros (metade do que custou a nacionalização dos esgotos de Lisboa) para a modernização da Linha do Minho não foi escrita na pedra. Na verdade, só inscreveu cinco milhões - apesar de 85% do investimento ser comunitário.
No caminho entre a promessa e a sua realização perdeu-se um zero à direita, o que faz do primeiro-ministro um zero à esquerda.
Viana do Castelo continua sem cinemas, cercada por portagens, com os estaleiros moribundos por incúria de quem governa, sem Alfa ou Intercidades e servida por um comboio do tempo do faroeste. Como é que havemos de respeitar Passos, se ele não se sabe dar ao respeito?

Jorge Fiel, no JN

O fim da Europa


Segundo a Reuters, Angela Merkel disse aos deputados alemães que pretende que o Chipre fique na Zona Euro, mas que a pequena ilha mediterrânica "tem de perceber que o seu atual modelo económico está morto". Mas, a chanceler ou não percebeu ainda ou não quer reconhecer que é o modelo económico europeu que, de facto, já morreu.
É uma morte anunciada, é certo, mas é uma morte estúpida e desnecessária. Desnecessária, porque a dimensão da economia cipriota não justificaria medidas tão drásticas. Estúpida, porque essas medidas drásticas, para além de injustificáveis, tiveram um efeito imediato, e terrível, em toda a Zona Euro.
A deliberação dos ministros das Finanças da Zona Euro surpreende até aqueles que, como eu, já não confiam no seu bom senso. Destruíram, ou puseram seriamente em causa, o princípio da confiança nos bancos, o que é um princípio universal, pelo menos nas economias de mercado. Um princípio que, ainda para mais, serviu de justificação para que o sistema bancário europeu tivesse sido recapitalizado, nos últimos anos, à custa dos contribuintes. Quem não se lembra, por exemplo, do que nos tem sido dito, para explicar o buraco negro do BPN que todos pagámos? Atentaram, também, ao respeito pela propriedade privada, ao determinarem um confisco dos depósitos bancários.
Além do mais, demonstraram que a solidariedade europeia não existe, principalmente no caso dos pequenos países, como é o caso de Chipre, cujo problema, pela sua dimensão absoluta, não justificaria uma medida dessa natureza.
Estarão os alemães e os seus cúmplices à espera de que os europeus guardem, agora, as suas poupanças debaixo do colchão? Não compreenderão, sequer, as consequências que isso poderá acarretar para o sacrossanto sistema bancário? Ou estarão interessados em que os depósitos dos russos, ou dos angolanos, fujam de países como Chipre, e por que não dizê-lo como Portugal ou Irlanda, e se concentrem nos bancos alemães?
É legítimo colocar esta questão, por oposição ao absurdo da decisão. Uma decisão suportada, ainda para mais, num argumento ridículo, relacionado com a eventual origem de uma parte significativa dos depósitos no Chipre que terão, como titulares, interesses russos ligados ao branqueamento de capitais.
Pois, é verdade que Chipre era, até há dias, um paraíso fiscal. É verdade que o modelo não era sustentável. Mas, ainda assim, é bom recordar que esse paraíso fiscal foi construído, em larga medida, para servir interesses alemães. Nos anos 90 do século passado, a gestão das tripulações e a gestão técnica dos navios de armadores alemães concentraram-se nessa ilha, exatamente para baixar os seus custos através da fuga aos impostos e do recrutamento de tripulantes de países do Terceiro Mundo, com salários de escravos. Em 2009, estavam registados no Chipre 1016 navios, que equivaliam a 2,6% da frota mundial. Em 2011, havia já 1867 navios registados no porto de Limassol. Muitos deles eram, de facto, controlados por empresas anónimas, controladas por armadores alemães e financiadas por bancos desse país. Chipre é líder mundial na gestão de tripulações, o que representa cerca de 7% do seu PIB.
Ou seja, não foram apenas os barões das máfias russas quem beneficiou do regime cipriota. Seria interessante perguntar à Senhora Merkel se, em vez de confiscar uma percentagem dos depósitos de cipriotas e dos russos, não seria, porventura, mais razoável sugerir ao Governo cipriota que aplicasse, às empresas de gestão de tripulações, uma taxa social única equivalente à que é paga, por exemplo, pelos armadores portugueses.
Infelizmente, a Europa não pode fazer essa pergunta, pela simples razão de que não existe. O desamor dos europeus relativamente aos seus políticos, o seu desapego pelo princípio da solidariedade não prenunciam nada de bom. Tal como o dinheiro debaixo do colchão que, ou muito me engano, ou não será em notas de euro.

Rui Moreira, no JN