O "Fórum das Regiões", defende uma Região Norte coincidente com a actual região-plano (CCDR-N) e um modelo de regionalização administrativa, tal como o consagrado na Constituição da República Portuguesa.

O "Fórum das Regiões", considera a Regionalização o melhor modelo para o desenvolvimento de Portugal e para ultrapassar o crescente empobrecimento com que a Região Norte se depara.


quarta-feira, 20 de março de 2013

A mãe que chora na rádio


A história que segue é tragicamente verídica: foi contada no fórum matinal da TSF, ontem dedicado ao facto de as famílias portuguesas estarem a cortar nos gastos com comida para suportar os efeitos da crise (o tema fez a manchete da edição de ontem do JN).

Contava a ouvinte que, em jeito de brincadeira e dada a crescente escassez de bens lá em casa, uma das filhas lhe dizia, à hora da refeição, qualquer coisa como: "Já sei, mãe. Hoje vamos comer sopa do que há e arroz do que há". Era a forma encontrada para brincar, logo tentar minorar, com um problema grave: a falta de comida. O acentuar da crise levou a mãe a responder-lhe: "Filha, já estivemos mais longe de comer sopa e arroz do que não há".

O choro que ia cortando as frases deste doloroso retrato fora antecedido por outro, este de um homem que explicava como os seus clientes deixaram de ter dinheiro para mudar o óleo ao carro, arriscando assim perdê-lo de vez. A seguir ouviu-se, em fundo, um galo. O animal interrompeu o desfiar de desgraças do dono, que, aproveitando o som inusitado, atirou: "Está a ouvir o galo? O que me vale é uma pequena horta e uns animais que tenho aqui atrás da casa"!

Podemos buscar muitas explicações sociológicas e outras tantas económicas e financeiras para o que nos está e irá acontecer. Mas este é, disso não tenhamos dúvidas, o retrato dos dias de muitas e muitas famílias portuguesas. Precisamente aquelas que, por falta de dinheiro, são obrigadas, entre outras coisas, a reduzir os gastos com alimentação.

Aposto que o ministro das Finanças e quejandos chamam a isto custos do ajustamento. É uma forma desavergonhada de qualificar o drama da mãe que chora quando deixa de suportar o simpático humor da filha para lhe dizer que, lá em casa, as coisas ainda vão piorar antes de melhorar.

Apetece torcer a famosa frase de Saint-Exupéry: "Aqueles que passam por nós não vão sós, não nos deixam sós. Deixam um pouco de si, levam um pouco de nós". Estes que estão a passar por nós, quando partirem, deixarão muito de si, para mal dos nossos pecados, e levarão (quase) tudo de nós.

É bem provável que o consumo privado afunde ainda mais. A taxa de inflação homóloga ontem conhecida aponta para aí: foi de 0%, quando comparados os meses de janeiro de 2012 e de 2013. Quer dizer: as empresas estão sem espaço para aumentar preços, logo reduzem os ganhos, logo tendem a ajustar, isto é, a desempregar.

O risco de deflação (queda generalizada dos preços) pode ainda estar longe, mas não é desprezível. Ele é consequência dos períodos de recessão. Foi particularmente grave na Grande Depressão que devastou os EUA: entre 1930 e 1933, os preços diminuíram 27%, os salários 40% e o desemprego disparou. Era só o que nos faltava...

Paulo Ferreira, no JN

Direito por linhas tortas


Ainda que os valores da transparência e da participação democrática estejam ausentes do conclave cardinalício e sejam estranhos, em geral, aos procedimentos internos da Igreja, pela escolha de Francisco I para a cadeira de Pedro estão os católicos de parabéns e ficou o Mundo um pouco mais esperançoso. Alguma prodigiosa "iluminação" terá conduzido os 115 cardeais até "quase o fim do Mundo", ao encontro deste engenheiro argentino de vida simples e palavra clara, filho de um emigrante que trocou a Itália de Mussolini pelos horizontes bem mais prometedores do Novo Mundo. E assim triunfou a inteligência das mudanças indispensáveis e se demonstrou uma vez mais que Deus pode escrever "direito por linhas tortas".

Já a transposição desta "prerrogativa divina" para o mundo profano se afigura, porém, incerta e problemática. Disso mesmo nos dão conta os 60 subscritores - quase todos residentes na capital e arredores - do "Manifesto pela Democratização do Regime", divulgado na passada terça-feira. Ali afirmam que a corrosão dos procedimentos e das instituições democráticas inibem a capacidade do nosso regime político produzir verdadeiras alternativas às políticas que arrastaram a governação da República até à desgraça presente e que bloqueiam quaisquer mudanças que possam perturbar as oligarquias políticas instaladas ou ameaçar a sua intolerável promiscuidade com os grandes interesses económicos e financeiros.

Num registo lúcido e cirúrgico, o "Manifesto" aponta "três passos fundamentais" para consumar a "rutura" indispensável:

- impor a realização de eleições primárias efetivamente abertas à participação de todos os simpatizantes, para a escolha dos candidatos dos partidos "a todos os cargos políticos";
- pôr termo às "listas fechadas" de candidatos cooptados pela direções partidárias, através da imposição do "voto nominal" e da extinção do monopólio partidário nas eleições legislativas;
- adotar regras para o financiamento público das campanhas eleitorais que garantam a transparência e a equidade entre todos os concorrentes.

São três passos simples, pertinentes e razoáveis que não será fácil enjeitar com pretextos expeditos. É um desafio que os partidos políticos fariam bem em assumir, admitindo que estão conscientes da gravidade das ameaças e determinados a combater a crescente erosão da confiança que os cidadãos depositam nas instituições democráticas e que, de forma veemente, têm vindo a manifestar.

O sucesso meteórico do "Movimento 5 Estrelas" nas recentes eleições italianas constitui um aviso que deve ser ponderado com a máxima seriedade. Também em Portugal, nos anos oitenta, no final do último mandato do Presidente Ramalho Eanes, um partido de inspiração presidencial - o PRD (Partido da Renovação Democrática) - aproveitou o amplo descontentamento gerado pelas medidas de austeridade impostas pelo FMI e executadas por um frágil governo de coligação entre o PS e o PSD, obtendo uma votação nas eleições legislativas de 1985 que, por pouco, quase ultrapassava a do PS.

O "Manifesto pela Democratização do Regime" assume uma clara distanciação face à demagogia populista e antipartidos que marcou a curta história do PRD e o seu desenlace infeliz. Evidentemente, não há engenharia eleitoral que garanta o acerto das políticas e a justiça da governação. A longa deriva que lançou os partidos sociais-democratas no pântano da terceira via e a sua dócil submissão aos dogmas do mercado preconizados por Margareth Thatcher, Ronald Reagan e George W. Bush, impediram, desde a era de Tony Blair, a reconstituição das fronteiras entre a esquerda e a direita, no mundo contraditório que sucedeu à implosão do império soviético. É por isso indispensável uma alternativa política substancial, aberta aos novos modos de participação política e mobilizadora de novas energias.

Pedro Bacelar Vasconcelos, no JN

Álvaro, leiloeiro de Portugal


Amigo Álvaro, uma má notícia: Vancouver não tem saudades tuas. "Álvaro who?" "Minister"? Tudo calmo no Canadá sem ti. Talvez tu tenhas saudades do Canadá. Ou talvez não - está sempre a chover, frio, e, assim como assim, umas 'férias' em Portugal vieram a calhar. Depois voltas tranquilamente para a civilização onde nenhum dos teus amigos saberá que tentaste meter um país no caixote do lixo ambiental.

Só assim se compreende que consigas ultrapassar em meia dúzia de meses as traquinices irresponsáveis dos PIN (projetos de Potencial Interesse Nacional) de Sócrates, Pinho e Basílio, que arrasavam o que fosse preciso por uma boa notícia de telejornal. O teu padrão é o mesmo: o que é necessário é "investimento". Desenvolvimento à pressa, martelado, cujas consequências nem quererás compreender. Obviamente, quando o recreio acabar, voltas às aulas de Vancouver.

Portugal ficará literalmente esventrado depois desta tua aventura de assinares uma centena de contratos de exploração mineira cuja exploração, no final, deixará crateras e contaminações nos cursos de água durante séculos. Já para não falar das poeiras que voam a quilómetros de distância e criam permanentes problemas respiratórios. Basta ir às Minas de São Domingos, no Alentejo, a São Pedro da Cova, em Gondomar, ou Nelas e Canas de Senhorim (bem perto de Viseu, tua terra natal) e ver. Crateras lunares e contaminações letais.

Percebe-se que algo de muito grave tem de estar a acontecer a um país que entrega, sem qualquer burburinho público, uma centena de novas concessões mineiras de uma só vez, faz do eucalipto a sua principal espécie e acha que vastas áreas de monocultura de olival intensivo (onde se inclui o maior do Mundo, com 12 mil hectares), numa terra tão árida como o Alentejo, é algo de sustentável. Assim, é um país sem futuro, e não por causa da dívida mas sim por perder o território.

Nesse mesmo fio de pensamento parecer-te-á normal, caro Álvaro, apoiares a exploração de gás de xisto (shale gas) no estuário do Tejo quando se sabe que é preciso dar algum tempo até que a exploração do shale não represente, por si só, a destruição da água limpa que está por baixo do solo. Há uma coisa que não te entrará na cabeça, eu sei: a água é mais importante que a energia. A energia tem alternativas. A água não.
A tua famosa frase "A Europa tem regras ambientalistas muito fundamentalistas que prejudicam a nossa indústria e prejudicam o nosso emprego" teve, aliás, uma rara resposta certa da tua colega Assunção Cristas quando lembrou no Parlamento que "não devemos ter a ambição de sermos iguais a outras geografias que, nessa matéria, estão atrás de nós". Claro, Álvaro, a Europa e o ambiente... Para quem está no Canadá a União Europeia é exatamente o quê?

E agora essa ideia da Trafaria? Um 'novo' porto (privado e estrangeiro) em Lisboa que obriga a redesenhar uma via férrea nova e também, evidentemente, desembocará na necessidade de se fazer a nova travessia sobre o Tejo. Curioso: não era o teu ministério que pretendia criar uma linha de mercadorias, urgente, para o Porto de Sines? E afinal vai-se construir um porto de águas profundas quase ao lado, ou seja, em Lisboa?... Mas isto bate certo com o ar do tempo. Também se entregou a ANA a um consórcio que acenou com dinheiro, hoje, e ficou com um monopólio que nos há de custar os olhos da cara durante décadas.

Álvaro, só um pedido mais: quando regressares a Vancouver, passa pela viaduto da zona do porto, ali mesmo, junto à baía (Waterfront) e espreita os comboios de mercadorias de centenas de metros de extensão, com dois contentores (um em cima do outro) em cada vagão. Esses comboios andam em cima de linhas onde também circulam comboios de passageiros, certo? Mas em Portugal, segundo o teu secretário de Estado dos Transportes, isso é impossível... Depois passa os olhos pelos planos do Obama de ir substituindo o transporte de avião pelos comboios mais rápidos (não precisam de ser 'ferraris'). Repararás então que ambas as coisas são possíveis, lá está, sem demagogia. Entretanto fala com os teus colegas sobre essa coisa nova, a Economia do Ambiente. E talvez, para a próxima, voltes ao Governo, mas com um pouco mais de mundo.

Daniel Deusdado, no JN

Crise não se resolve "contra o Estado social", avisa diretor da faculdade de Economia de Coimbra


Fórum das Regiões: Digam isso ao Sr. Coelho e ao Sr. Gaspar, pode ser que eles aprendam alguma coisa sobre como governar o país...


"As políticas sociais e o Estado social são condição para lançar o crescimento económico", sem o qual não será possível vencer a crise, disse o diretor da Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra, José Reis, durante um debate sobre "A segurança social pública".

Para José Reis, que participava num debate sobre "A segurança social pública - Defesa do Estado social e a sua sustentabilidade futura", promovido pela FEBASE (Federação Nacional do Setor Financeiro), "as políticas sociais e o Estado social são condição para lançar o crescimento económico", sem o qual não será possível vencer a crise. É necessário "exatamente o contrário daquilo que tem vindo a ser feito, até agora" em Portugal, sustentou o economista, considerando que "é preciso mais Estado e investimento público, sobretudo no domínio das políticas sociais". 

A segurança social é "crucial para que vivamos com um mínimo de dignidade", mas também para "relançar" a economia, como, de resto, está a fazer, por exemplo, o Japão, país que tem ultrapassado "crises complicadíssimas" porque possui "a agilidade institucional" e "a capacidade de ação" que a "decrépita Europa não tem". 

Portugal precisa de "um imediato ajustamento salarial, não apenas do ponto de vista social e da dignidade do trabalho", mas também para relançar a economia, sublinhou o diretor da Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra (FEUC). O antigo secretário de Estado da Segurança Social e deputado do PS Pedro Marques, outros dos participantes no debate, defendeu que "Portugal tem um dos sistemas [de segurança social] mais sustentáveis", como reconhecem a Comissão Europeia, a OCDE e "até a agência de rating Fitch". A segurança social portuguesa "tem uma boa reserva (cerca de dez mil milhões de euros)", que lhe permite "aguentar nesta fase", mas o país "tem de voltar ao crescimento económico", para poder assegurar a sustentabilidade da segurança social, advertiu Pedro Marques, salientando que "sem crescimento económico não há nenhuma política pública que resista". 

O Estado social "é o modo de defesa do próprio capitalismo" e "é perigoso este afrontamento ao Estado social", afirmou o presidente do Instituto Superior de Contabilidade e Administração de Coimbra (ISCAC), Manuel Castelo Branco, que também participou no encontro. Assumindo-se como um "democrata-cristão" e politicamente de "direita", Manuel Castelo Branco, afirmou-se "confortável a defender o Estado social", lamentando que "a direita tenha esquecido a filiação do Estado social"."Só é legítimo ao Estado cobrar impostos, se essa cobrança se destinar ao Estado social", disse Manuel Castelo Branco, considerando que a "carga fiscal" em Portugal "exige um Estado social a sério e não para pagar juros usurários a credores". 

Os impostos "sempre foram a alavanca das revoluções democráticas e pode ser que o FMI [Fundo Monetário Internacional] e o nosso Governo estejam a brincar com o fogo", advertiu o presidente do ISCAC. O debate de terça-feira, em Coimbra, foi no primeiro de um ciclo de conferências sobre a segurança social que a FEBASE está a promover, naquela cidade, no Porto e em Lisboa. A FEBASE reúne os sindicatos dos bancários do Norte, do Centro e do Sul e Ilhas e os sindicatos dos Profissionais de Seguros de Portugal e dos Trabalhadores da Actividade Seguradora, todos filiados na UGT.

Fonte: Jornal de Notícias

terça-feira, 12 de março de 2013

Caso BPN, medricas e bardamerdas


Novembro e dezembro de 2008 foram meses marcados pela detenção de dois vigaristas a grande escala. Nos Estados Unidos da América, Bernard Madoff fez tremer Wall Street e o FBI deitou-lhe a mão após provocar um rombo da ordem dos 65 mil milhões de euros usando um esquema de pirâmide em fundos de investimento, alimentado por uma série de gente gananciosa.

Em Portugal, sob suspeita de burla, fraude fiscal e branqueamento de capitais, Oliveira e Costa, até então todo-poderoso presidente do Conselho de Administração do Banco Português de Negócios (BPN), foi também detido.

As coincidências terminam aqui.

Quatro anos e poucos meses depois, roçará o ridículo a tentativa de comparar consequências para os autores das falcatruas.

O sistema de justiça americano foi célere e cortou rente quaisquer hipóteses de malabarismos a Bernard Madoff. Em junho de 2009, isto é, sete meses após ter ido parar com os ossos a um estabelecimento prisional, foi condenado a 150 anos de prisão! E atrás das grades está.

Em contraponto, o que aconteceu a Oliveira e Costa - e já agora a uma série de gente que sob a sua cobertura também encheu os bolsos?

É imprevisível uma sentença para a ruína provocada no BPN e de cujos prejuízos o povo português paga uma fatura elevada pela via da nacionalização - já vai em quatro mil milhões de euros e, upa!, upa!, pode subir até aos sete mil milhões.

A boçalidade de Oliveira e Costa, patente num mastigar de boca aberta e sorriso cínico numa comissão parlamentar, está longe de ter um final. O julgamento tem centenas de testemunhas, arrastar-se-á por tempo indeterminado nos tribunais, e os acólitos de uma vigarice inqualificável vão, também eles, sendo acusados num sistema de conta-gotas. Uma vergonha! Um país incapaz de ter um sistema de justiça no qual os prevaricadores não sejam punidos em tempo razoável é, em certa medida, um sítio pouco recomendável.

O caso BPN - como outros de escala igualmente não negligenciável - legitima todas as suspeitas dos portugueses sobre a existência de um esquema no qual os vigaristas mais poderosos se safam das malhas da lei, em contraponto aos pobres e remediados.

Madoff já está a pagar pelos crimes cometidos. Oliveira e Costa continua à solta - ele e o bando que o rodeou e dele se alimentou, obtendo igualmente benesses ilícitas.

Um país assim, insiste-se, não augura nada de bom. É um país entregue em muitos setores a corporações nas quais os competentes existem, mas são uma minoria; pior, são constituídas por demasiados medricas e bardamerdas.


Fernando Santos, no JN

Sondagem mostra um Governo de costas voltadas para o povo


Fórum das Regiões: Há muito que o "mundo" político está à parte do "mundo" real dos cidadãos. Veja-se que, quase ao mesmo tempo que o Presidente da República alertava para o que significavam as ditas manifestações, o primeiro ministro dizia que não governava ao sabor delas. Julgo que este, só não disse afinal de contas o quê que "estava a governar"!

O Governo vai cortar no Estado Social, quando deveria fazê-lo nas Parcerias Público Privadas e nos juros da dívida. Uma sondagem para o JN revela um divórcio claro entre a austeridade com que o Governo ameaça e os cortes que os portugueses defendem.


As manifestações de sábado passado deram um sinal claro de falta de sintonia entre quem governa e quem é governado. Mas outra prova desse divórcio são os dados recolhidos por uma sondagem da Universidade Católica para o JN.

Perante o anúncio de cortes de quatro mil milhões de euros nos gastos anuais do Estado, os portugueses têm respostas diferentes, quando confrontados com as áreas onde acreditam que o Governo vai cortar e as áreas onde acham que deveria cortar.

Saúde (61%), Educação (54%) e Segurança Social (52%) serão os serviços mais afetados, apontam. Sendo que a energia do Governo deveria estar a ser direcionada para obter poupança nas Parcerias Público Privadas (57%) e nos juros da dívida (36%).

Como explica a analista Cristina Azevedo, os portugueses já perceberam que os interesses dos parceiros privados nas PPP e os interesses da Troika serão "ferozmente defendidos" (ver opinião).

O único ponto de contacto entre os portugueses e o Governo está nos cortes na área da Defesa: 33% defende que se façam, 34% pensa que se fará. Um dado confirmado quando se faz uma pergunta mais concreta sobre o número de militares no ativo: 43% dos portugueses defende uma diminuição, contra 49% que quer a sua manutenção ou até o seu aumento.


Fonte: Jornal de Notícias

O Rio é fino como um alho


Ó! meu Porto onde a eterna mocidade diz à gente o que é ser nobre e leal, teu pendão leva o escudo da cidade que na História deu o nome a Portugal... Confesso que sinto um arrepio na espinha quando, a sublinhar a entrada em campo da nossa equipa, a instalação sonora passa o hino do F.C. Porto, cantado pela voz límpida de Maria Amélia Canossa e tocado pela London Philharmonic Orchestra.

Não é muito racional, mas penso que todos - portistas ou salgueiristas, benfiquistas ou sportinguistas - sabemos que o futebol não é o território da razão, mas da emoção e da paixão.

Maria Amélia Canossa faz parte de um geração de cançonetistas, como Tony de Matos e Simone de Oliveira, que marcaram o panorama musical do Portugal dos anos 60. Quando recordo Tony de Matos, vêm-me à memória "Só nós dois" (...é que sabemos quando nos damos bem). Falam-me de Simone de Oliveira e desato logo a trautear "Desfolhada" (eira de milho, luar de agosto, quem faz um filho, fá-lo por gosto) com a minha voz desafinada.

O hino do Porto é a minha reação pavloviana ao nome da Maria Amélia Canossa, que Rui Rio planeia distinguir quando no 25 de abril distribuir pela última vez as medalhas da cidade.

Uma escolha algo estranha por vir de um político que a primeira coisa que fez após ser eleito presidente da Câmara foi levar à cena um western de 4.ª categoria, com o Porto a fazer de cidade selvagem do Faroeste, reservando para ele o papel do xerife que enfrenta um bando de malfeitores, onde se conluiava perigosos agentes culturais, empreiteiros e o F.C. Porto.

O Rui é fino como um alho. Esta estratégia resultou em plano para um político como ele, para quem o Porto não era o ponto de chegada, mas o trampolim para altos voos em Lisboa. Ao declarar guerra a Pinto da Costa conquistou a simpatia dos alegados seis milhões de antiportistas.

Durante uma dúzia de anos, Rio cometeu a proeza de ser o único autarca da Europa a recusar a varanda dos Paços do Concelho ao clube que leva mais alto o nome da cidade - os campeões europeus de 2004, vencedores da Taça UEFA de 2003 e da Liga Europa de 2011, e campeões nacionais em 2003, 2004, 2006, 2007, 2008, 2009, 2011 e 2012.

No ano passado, Rui surpreendeu ao dar a medalha de mérito municipal, grau cobre, ao Manuel do Laço, sócio símbolo do seu Boavista. Este ano vai dar a medalha de mérito municipal, grau prata, à cantora do hino do Porto. Tem lógica, apesar de ter pena que ele se tenha esquecido do Lourenço trompetista.

Já agora, que estamos a falar de distinções, desconfio que o próximo presidente da (e não de? ) Câmara vai entregar ao F.C. Porto as chaves da cidade, depositando-as nas mãos do seu líder histórico, Pinto da Costa. Pois, como canta Maria Amélia Canossa, "quando alguém se atrever a sufocar o grito audaz da tua ardente voz, ó! Porto então verás vibrar a multidão, num grito só de todos nós".

Jorge Fiel, no JN

terça-feira, 5 de março de 2013

AI SE PASSOS COELHO FOSSE HONESTO !


A REDUÇÃO das reformas e pensões são as piores, mais cruéis, e moralmente mais criminosas, das medidas de austeridade a que, sem culpa nem julgamento, fomos condenados pelo directório tecnocrático que governa o protectorado a que os nossos políticos reduziram Portugal.

Para os reformados e pensionistas, o ano de 2013 vai ser ainda pior do que este 2012. Os cortes vão manter-se ou crescer e, com o brutal aumento de impostos, a subida dos preços dos combustíveis, do gás e da electricidade, e o encarecimento de muitos bens essenciais, o rendimento disponível dos idosos será ainda menor.

Os aposentados são indefesos. Com a existência organizada em função dum determinado rendimento, para o qual se prepararam toda a vida, entregando ao Estado o estipulado para este fazer render e pagar-lhes agora o respectivo retorno, os reformados não têm defesa. São agora espoliados e, não tendo condições para procurar outras fontes de rendimento, apenas lhes resta, face à nova realidade que lhes criaram, não honrar os seus compromissos, passar frio, fome e acumular dívidas.

No resto da Europa, os velhos viram as suas reformas não serem atingidas e, em alguns casos, como sucedeu, por exemplo, em Espanha, serem até ligeiramente aumentadas. Portugal não é país para velhos. Os políticos devem pensar que os nossos velhos já estão mortos e que, no fim de contas, estamos todos mal enterrados...


Joaquim Letria, via e-mail

Salários e prémios pornográficos


Relógios, Banca, queijos e chocolates são quatro marcas do prestígio da Suíça. Um quinto referencial é tão ou mais apreciado: o instituto do referendo. As decisões dos suíços, nos cantões ou na confederação, são por regra referendadas pelo povo. A Democracia helvética confia nos eleitos para a governação, mas não lhes permite a libertinagem de poderem colocar-se a coberto do prazo de um mandato para fazer tudo quanto lhes dá na real gana. Há sempre um controlo remoto capaz de ser acionado - bastando no plano estadual a recolha de 100 mil assinaturas para submeter propostas de alteração a leis num prazo máximo de 18 meses.

A prática suíça tem, supletivamente, essa virtude: os eleitos estão avisados da impossibilidade de tratar os cidadãos como mentecaptos a todo o tempo.

O aprofundamento da Democracia na Suíça pela via do referendo dispõe de sinais constantes. E ontem voltou a ser paradigmático.

Um teimoso de nome Thomas Minder está com a falência da Swissair em 2001 atravessada há muito na garganta. A extinção da companhia de bandeira do país repercutiu os efeitos da crise do transporte aéreo, mas também uma gestão ao tipo "fartar vilanagem" da qual alguns administradores saíram de bolsos a abarrotar com muitos milhões. Thomas Minder defendeu a necessidade de criar regras, os governos suíços foram sendo sempre do contra, mas ontem, por fim, escancararam--se as hipóteses de mudança das leis.
Quase 68% dos suíços referendaram a necessidade de controlar salários e atribuição de prémios chorudos aos conselhos de administração das empresas cotadas em bolsa - encurtando também os mandatos para um ano. Afinal, na Suíça como noutros países, incluindo Portugal, há gestores a receberem verbas pornográficas, em detrimento da constituição de reservas nas empresas e distribuição de dividendos aos acionistas. No caso português, aliás, é conhecido o escândalo de atribuição de prémios a administradores pelo desempenho de empresas cujos resultados ficam no vermelho retinto.

Ao resultado do referendo na Suíça - protagonizado pelos mesmíssimos cidadãos que votaram não há muito tempo a recusa de um aumento dos dias de férias - não é alheia, naturalmente, uma sede justicialista, eventualmente extremada.

Para todos os efeitos, no entanto, o fundamental é valorizar a autonomia do povo na tomada de decisões.
A Europa da União e os respetivos países parceiros não perderiam nada em tornar mais frequente - e efetivo - o referendo dos cidadãos. Organizada segundo partidos com tendência para se fecharem numa espécie de concha em instinto de defesa do emprego das cliques, a classe política faz mal em não tornar mais frequente a capacidade de decisão do povo. Mais cedo do que tarde cavará a sua sepultura.


Fernando Santos, no JN

Governo vai contratar empresa de recuperação de crédito do BPN


Fórum das Regiões: Upsss, então agora também é preciso contratar uma empresa privada para recuperar o crédito do BPN? Cá para nós que ninguém nos ouve, vamos pagar à dita empresa e não vamos recuperar crédito nenhum. Só esperamos que essa empresa não seja de Oliveira e Costa, ou de Dias Loureiro, etc, etc.



Governo vai contratar empresa de recuperação de crédito do BPN

 

O Governo vai contratar até julho uma empresa para gerir os 4,2 mil milhões de euros de créditos ao BPN, disse o Ministério das Finanças a deputados do PSD.

Segundo o documento, a que a Lusa teve acesso, esta segunda-feira, o concurso internacional para escolha de uma empresa de recuperação de crédito já foi lançado - a 18 de janeiro - e deverá estar "concluído até ao termo do primeiro semestre de 2013".

O concurso - que já tinha sido acordado com as entidades da troika - faz parte de uma tentativa de adotar "maior eficácia e eficiência" na recuperação dos créditos ao BPN por parte da Parvalorem, entidade que gere atualmente os créditos e ativos daquele banco, refere o documento.

A explicação foi dada na sequência de um pedido de esclarecimentos de um grupo de deputados do PSD, liderado por Duarte Marques, depois de várias notícias sobre suspeitas de incumprimento dos devedores.

"Havia várias notícias que diziam que determinadas empresas e pessoas não estavam a cumprir com as suas obrigações com o BPN, a pagar aquilo que deviam aos contribuintes portugueses. Quisemos que o Governo confirmasse isso e, numa altura em que se pedem tantos sacrifícios aos portugueses, queríamos saber se o Governo estava ou não a fazer tudo o que estava ao seu alcance para aumentar o nível de cobrança da dívida ao BPN", explicou à Lusa Duarte Marques.

Segundo o deputado, a resposta foi positiva, já que deu conta de que "há uma estratégia que está planificada e que o Governo está a usar todos os instrumentos ao seu alcance para recuperar o máximo montante de valor em dívida dos devedores ao BPN".


Fonte: Jornal de Notícias